Equações do 2.º Grau e Fórmula Resolutiva
Em 1535, dois matemáticos italianos — Niccolò Tartaglia e Antonio Fior — disputaram um duelo público de matemática. O prémio: quem resolvesse mais equações do terceiro grau num só dia. Tartaglia, que gaguejava desde criança e se autodidata chamava «o tartamudo», tinha descoberto em segredo uma fórmula que Fior não conhecia. Venceu todos os trinta problemas em apenas duas horas. Mas antes de chegar ao terceiro grau, é preciso dominar o segundo — e é precisamente essa história que começa aqui.
O Que É uma Equação do 2.º Grau?
Uma equação do 2.º grau (ou equação quadrática) tem a forma geral:
onde , e são números reais. O coeficiente não pode ser zero — caso contrário, seria uma equação do 1.º grau.
Exemplos:
- — completa ()
- — incompleta (falta o termo em )
- — incompleta (falta o termo independente)
O grau de uma equação polinomial é o maior expoente presente. Numa equação do 2.º grau, o maior expoente é 2 — daí o nome. A parábola é o gráfico associado.
A Fórmula Resolutiva (Fórmula de Bhaskara)
A fórmula que resolve qualquer equação do 2.º grau foi sistematizada pelo matemático indiano Bhaskara II no século XII, séculos antes de Tartaglia:
Esta fórmula dá diretamente as duas raízes (ou confirma que não existem raízes reais).
O Discriminante
A expressão dentro da raiz quadrada tem nome próprio — é o discriminante, denotado por (delta):
O sinal do discriminante determina tudo:
| | Número de raízes reais | Significado geométrico | |---|---|---| | | Duas raízes distintas | Parábola corta o eixo em dois pontos | | | Uma raiz dupla | Parábola tangente ao eixo | | | Sem raízes reais | Parábola não interseta o eixo |
Se , a parábola abre para cima (concavidade voltada para cima). Se , abre para baixo. Isto é fundamental para interpretar máximos e mínimos.
Exemplos Resolvidos
Exemplo 1 — Dois resultados distintos
Resolver .
Passo 1: Identificar , , .
Passo 2: Calcular o discriminante:
Passo 3: Aplicar a fórmula:
Portanto: e .
Exemplo 2 — Raiz dupla
Resolver .
Raiz dupla: . Note que .
Exemplo 3 — Sem raízes reais
Resolver .
Não existem raízes reais. (Existem raízes complexas, mas isso é matéria do 12.º ano.)
Relações de Viète — Soma e Produto das Raízes
Quando , as raízes e satisfazem sempre:
Estas relações, descobertas pelo matemático francês François Viète no século XVI, permitem verificar respostas sem voltar a calcular tudo.
Verificação do Exemplo 1:
- Soma: ✓
- Produto: ✓
Se o enunciado pede as raízes mas o discriminante é feio, usa as relações de Viète para verificar se as tuas respostas são coerentes. Poupa tempo e evita erros de cálculo.
Equações Incompletas — Casos Especiais
Caso 1: (tipo )
Exemplo:
Caso 2: (tipo )
Fatoriza-se o em evidência:
Equações Bicuadradas
Uma equação bicuadrada tem a forma . Resolve-se com a substituição :
Depois de encontrar e , resolve (só se ).
Exemplo: Resolver .
Seja :
De : . De : .
As quatro raízes são: .
Aplicação Real — Trajetória de um Projétil
A altura (em metros) de um objeto lançado verticalmente é dada por:
onde , é a velocidade inicial e é a altura inicial.
Problema: Uma bola é lançada do chão () com velocidade inicial m/s. Quando toca o chão novamente?
Logo (lançamento) ou segundos.
As equações quadráticas surgem em provas do IAVE regularmente associadas a áreas de retângulos, trajetórias e problemas de otimização simples. Em 2023, mais de 60% dos exercícios de álgebra do 9.º ano envolviam equações do 2.º grau.
Para o Exame
- Memoriza e a fórmula resolutiva.
- Verifica sempre com as relações de Viète: e .
- Nas equações incompletas, nunca dividas ambos os membros por — perdes a raiz !
- Em equações bicuadradas, a substituição é sempre o primeiro passo.
- Se , escreve explicitamente «não tem raízes reais» — o avaliador quer ver esse raciocínio.