A Combustão do Metano — Porquê Liberta Energia?
Quando acendes o fogão a gás, o metano arde com uma chama azul estável. A reação é simples de escrever:
Mas porque é que esta reação liberta calor em vez de o absorver? Por que é que ocorre espontaneamente sem ser necessário alimentá-la constantemente? A resposta está na termodinâmica química — o ramo que une energia, calor, trabalho e a direção natural das transformações.
1. Energia Interna e Entalpia
Sistema e Vizinhança
Em termodinâmica, distinguimos sempre:
- Sistema: a parte que estudamos (p. ex., os reagentes e produtos numa solução).
- Vizinhança: tudo o que rodeia o sistema.
- Universo = sistema + vizinhança.
Energia Interna (U)
A energia interna é a soma de toda a energia cinética e potencial das partículas do sistema. Não a podemos medir diretamente, mas medimos as suas variações:
onde é o calor trocado e é o trabalho realizado sobre o sistema.
Entalpia (H)
A maioria das reações em laboratório ocorre a pressão constante (pressão atmosférica). Nesse caso, define-se a entalpia:
A variação de entalpia a pressão constante é igual ao calor trocado:
- : reação exotérmica — o sistema cede calor à vizinhança.
- : reação endotérmica — o sistema absorve calor da vizinhança.
2. Entalpia de Formação Padrão
A entalpia de formação padrão () é a entalpia de reação para a formação de 1 mol de composto a partir dos seus elementos no estado padrão (298 K, 1 bar).
Por definição, dos elementos puros no estado padrão é zero.
Exemplos:
| Substância | (kJ/mol) | |---|---| | | −286 | | | −393,5 | | | −74,8 | | | −46,1 | | | +49,1 |
Cálculo de ΔH de Reação
Exemplo — Combustão do propano:
3. Lei de Hess
A lei de Hess afirma que a variação de entalpia de uma reação é independente do caminho — depende apenas dos estados inicial e final.
A diferença de altitude entre Lisboa e o cume da Serra da Estrela é sempre a mesma, independentemente do trajeto que escolhas. A entalpia funciona da mesma forma.
Aplicação Prática
Suponhamos que queremos determinar para:
Conhecemos:
Invertendo a reação 2 e somando com a reação 1:
4. Calorimetria
A calorimetria mede experimentalmente as variações de entalpia.
Calorímetro de Pressão Constante (Copo de Poliestireno)
Usado para reações em solução aquosa:
onde .
Bomba Calorimétrica (Volume Constante)
Mede ; a conversão para usa:
onde é a variação do número de moles de gás.
A energia dos alimentos (calorias) é medida por combustão numa bomba calorimétrica. 1 g de gordura liberta ≈ 37 kJ; 1 g de glícido liberta ≈ 17 kJ.
5. Entropia (S)
O Que É a Entropia?
A entropia é uma medida da desordem ou do número de microestados acessíveis a um sistema. A segunda lei da termodinâmica afirma:
Em processos espontâneos, a entropia do universo aumenta.
Variação de Entropia em Reações
Regras qualitativas para prever o sinal de :
| Situação | ΔS | |---|---| | Gás formado a partir de sólido ou líquido | positivo (aumento) | | Aumento do número de moles de gás | positivo | | Dissolução de um sólido iónico em água | geralmente positivo | | Solidificação de um líquido | negativo |
Gás = grande entropia. Um cubo de gelo a derreter aumenta a desordem — ΔS > 0.
6. Energia de Gibbs (ΔG)
A Função que Une Entalpia e Entropia
J. Willard Gibbs combinou ΔH e ΔS numa única função que prevê a espontaneidade a temperatura e pressão constantes:
- : reação espontânea (exergónica)
- : sistema em equilíbrio
- : reação não espontânea (endergónica) no sentido direto
Tabela de Espontaneidade
| ΔH | ΔS | ΔG | Espontaneidade | |---|---|---|---| | − | + | sempre − | Sempre espontânea | | − | − | depende de T | Espontânea a baixas T | | + | + | depende de T | Espontânea a altas T | | + | − | sempre + | Nunca espontânea |
Temperatura de Equilíbrio
Quando :
Exemplo: A decomposição do carbonato de cálcio:
com e :
Acima de 833 °C, a decomposição é espontânea — é assim que se produz cal viva industrialmente.
7. Relação entre ΔG e a Constante de Equilíbrio
onde e é a constante de equilíbrio.
| ΔG° | K | Significado | |---|---|---| | muito negativo | K ≫ 1 | Equilíbrio fortemente para os produtos | | ≈ 0 | K ≈ 1 | Equilíbrio intermédio | | muito positivo | K ≪ 1 | Equilíbrio fortemente para os reagentes |
8. Diagramas de Entalpia
Os diagramas de coordenada de reação ilustram a energia ao longo do processo:
Energia
| Ea (com catalisador)
| /\ /\
| / \/ \ Ea (sem catalisador)
| / \ \
|/ ΔH < 0 \
| \
reagentes produtos
- Ea: energia de ativação (barreira cinética)
- ΔH: diferença de entalpia entre produtos e reagentes (fator termodinâmico)
ΔG negativo não garante que a reação seja rápida. O diamante tem ΔG de conversão positivo para grafite — a reação é espontânea no sentido grafite → diamante, mas a energia de ativação é tão elevada que o diamante é estável em condições normais durante milénios.
9. Aplicações: Combustíveis e Energia
Poder Calorífico
| Combustível | ΔH combustão (kJ/g) | |---|---| | Hidrogénio | −142 | | Metano | −55 | | Gasolina | −47 | | Etanol | −30 | | Carvão | −33 |
Pilhas de Combustível
Nas pilhas de hidrogénio, a energia de Gibbs é convertida diretamente em eletricidade:
A eficiência teórica é muito superior à dos motores de combustão interna (limitados pelo rendimento de Carnot).
Em 2024, Portugal produziu mais de 60 % da sua eletricidade a partir de fontes renováveis (hídrica, eólica, solar). A termodinâmica da armazenagem de energia — baterias e hidrogénio verde — é central para atingir a neutralidade carbónica.
10. Reações Endotérmicas no Quotidiano
Nem todas as reações úteis são exotérmicas:
- Bolsas de frio instantâneas: dissolução de nitrato de amónio em água ().
- Fotossíntese: absorve energia solar para produzir glicose.
- Fusão nuclear (deutério + trítio): absorve energia de ativação mas liberta imenso mais.
Resumo Visual
| Grandeza | Símbolo | Unidades | Mede | |---|---|---|---| | Entalpia | ΔH | kJ/mol | Calor a pressão constante | | Entropia | ΔS | J/(mol·K) | Desordem / microestados | | Energia de Gibbs | ΔG | kJ/mol | Espontaneidade a T, p const. |