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Fernando Pessoa e os Heterónimos

Em 8 de março de 1914, Fernando Pessoa escreveu 30 poemas de uma vez — mas não eram seus. Eram do Alberto Caeiro, um pastor alentejano que nunca existiu. Chamou-lhe o 'dia triunfal'. O homem que era três poetas ao mesmo tempo.

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Um Homem que Era Três

"No dia 8 de Março de 1914 — e notai que este é o dia em que fui encontrado por aqueles que me criaram — senti surgir em mim, quase de repente, uma personagem a quem chamei Alberto Caeiro."

Fernando Pessoa descreveu assim o seu "dia triunfal": o dia em que, numa tarde, escreveu de um fôlego os primeiros poemas de um pastor que nunca existiu. Mas para Pessoa, Caeiro existia — com uma biografia, uma filosofia, uma voz inconfundível. Diferente de um pseudónimo (um nome falso para o mesmo autor), Caeiro era uma pessoa diferente.

Esta é a singularidade de Fernando Pessoa: não escreveu como se fosse outra pessoa — foi essas outras pessoas. Chamou-lhes heterónimos.


O Ortónimo e os Heterónimos

Ortónimo é o autor que escreve sob o próprio nome — o "Fernando Pessoa ele-mesmo". Também é uma personagem literária, mas coincide com o nome real.

Heterónimo é uma persona literária com identidade completa e autónoma:

  • Nome, data de nascimento, bigrafia
  • Personalidade e filosofia próprias
  • Estilo literário inconfundível
  • Relação explícita com os outros heterónimos

Os três heterónimos principais são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Pessoa relacionava-os entre si: Caeiro foi "mestre" de Reis e de Campos; Campos escreveu uma ode ao falecimento de Caeiro.


Alberto Caeiro — O Mestre

Biografia: Pastor alentejano, nascido em Lisboa em 1889, falecido em 1915 de tuberculose. Quase sem instrução formal.

Filosofia: Sensacionismo radical — a experiência pura dos sentidos, sem pensamento, sem interpretação, sem metáforas. "Não tenho filosofia: tenho sentidos." Caeiro recusa o pensamento abstrato; para ele, pensar é estar doente.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Obra: O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso, Poemas Inconjuntos

Estilo: verso livre, linguagem simples, rejeiçao de símbolos e metáforas. Os "rebanhos" que guarda são os seus pensamentos.


Ricardo Reis — O Pagão

Biografia: Nascido no Porto em 1887. Educado pelos jesuítas. Viveu no Brasil após o 28 de Maio de 1926. Doutor em latim.

Filosofia: Neoclassicismo e estoicismo. Inspirado nos poetas latinos (Horácio, Virgílio). Aceita o destino com tranquilidade pagã. Os deuses existem, mas são indiferentes ao sofrimento humano. É preciso viver com serenidade.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada."

Obra: Odes (à maneira de Horácio)

Estilo: métrica clássica, linguagem cuidada e arcaizante, equanimidade budista-pagã.


Álvaro de Campos — O Engenheiro

Biografia: Nascido em Tavira em 1890. Engenheiro naval formado em Glasgow. Viajante.

Filosofia: Futurismo e sensacionismo extremo. Ao contrário de Caeiro (que rejeita o pensamento), Campos quer sentir tudo de todas as formas. É o heterónimo mais moderno, mais urbano, mais angustiado.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Obra: "Ode Triunfal", "Ode Marítima", "Tabacaria", "Lisbon Revisited"

Estilo: verso livre de grandes dimensões, exclamações, repetições, catalogações de sensações. "Ode Triunfal" é um hino à industrialização.

"Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!"


Fernando Pessoa Ortónimo

O "Fernando Pessoa ele-mesmo" escreveu poesia lírica em que domina a saudade, a angústia do fingimento e a pluralidade do eu:

"Fingir é conhecer-se." "O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente."

Tem também poemas de intervenção cívica e patrióticos. A única obra publicada em vida, Mensagem (1934), é um poema épico-simbólico sobre Portugal e o sebastianismo — a esperança no regresso de D. Sebastião e o "Quinto Império" espiritual de Portugal.


Bernardo Soares — O Semi-Heterónimo

O Livro do Desassossego é assinado por Bernardo Soares, "ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa". Pessoa chamou-lhe "semi-heterónimo" porque Soares partilha mais traços com o próprio Pessoa — mas é ainda uma voz diferente, mais intimista e fragmentária.

É um dos textos mais originais da literatura portuguesa do século XX: uma prosa poética, autobiografia impossível, diário sem data.


Para o Exame de Português

O que estudar:

  • Distinção ortónimo/heterónimo (muito provável no exame)
  • Características filosóficas e estilísticas de cada heterónimo
  • Análise de poemas: "O Guardador de Rebanhos" (Caeiro), "Odes" (Reis), "Tabacaria" e "Ode Triunfal" (Campos), "Autopsicografia" (ortónimo)
  • Conceito de fingimento artístico
  • Mensagem: sebastianismo, mito do Encoberto, estrutura