O Clima e a Atmosfera
Em Junho de 2023, Portugal registou a temperatura mais alta de Junho da sua história: 47,4°C em Mora, no Alentejo. Em 2017, os incêndios de Pedrógão Grande e Góis mataram 66 pessoas numa única noite — a maior catástrofe de incêndio da história portuguesa. O interior do país está a desertificar a um ritmo visível dentro de uma única geração humana.
A temperatura média em Portugal aumentou 1,7°C desde 1850. Parece pouco? Considera o seguinte: a diferença de temperatura média global entre uma época glaciar (quando havia quilómetros de gelo sobre a Europa) e hoje é de apenas 4 a 5°C. 1,7°C não é uma variação insignificante — é uma transformação estrutural do clima.
E isto não é especulação. É física. A mesma física que explica porque Vénus, mais longe do Sol que Mercúrio, é mais quente que Mercúrio. A mesma física que James Fourier descreveu em 1824 e Eunice Newton Foote demonstrou experimentalmente em 1856.
A atmosfera: uma fina camada protectora
A atmosfera terrestre tem cerca de 100 km de espessura — mas 99% da sua massa está nos primeiros 30 km. Em comparação com o raio da Terra (6 371 km), é mais fina do que a casca de uma maçã.
Divide-se em camadas com características distintas:
- Troposfera (0–12 km): onde vive o tempo — nuvens, chuva, vento, tempestades. Temperatura decresce com a altitude.
- Estratosfera (12–50 km): onde está a camada de ozono que bloqueia a radiação UV. Temperatura aumenta com a altitude.
- Mesosfera (50–80 km): onde os meteoritos entram em combustão. A camada mais fria (-90°C).
- Termosfera (80–600 km): onde orbitam os satélites baixos e a ISS.
O ar que respiras é: 78% azoto (N₂), 21% oxigénio (O₂), 0,9% árgon, e 0,04% CO₂. Mas este 0,04% — 420 partes por milhão — é o que faz toda a diferença para o clima da Terra.
A simulação
A percentagem de CO₂ na atmosfera
O efeito de estufa: natural e artificial
Ciclos de feedback: quando o aquecimento se alimenta a si mesmo
A física do clima não é linear. Existem ciclos de feedback positivo que amplificam o aquecimento inicial:
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Feedback do gelo-albedo: o gelo branco reflecte 80–90% da radiação solar. Quando derrete, expõe oceano escuro, que absorve 94%. Menos gelo → mais absorção → mais aquecimento → menos gelo.
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Feedback do vapor de água: ar mais quente retém mais vapor de água. O vapor de água é o GEE mais abundante. Mais temperatura → mais vapor → mais efeito de estufa → mais temperatura.
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Permafrost: o solo permanentemente gelado do Árctico contém enormes quantidades de metano e CO₂ aprisionados. Quando descongela, liberta esses gases — que amplificam o aquecimento que os libertou.
Portugal e as alterações climáticas
Portugal está na fronteira entre a zona temperada e a semi-árida. Pequenas variações de temperatura e precipitação têm efeitos amplificados:
- Incêndios: o Verão de 2017 (Pedrógão Grande, Góis) e 2022 (Leiria) são o resultado direto de Verões mais quentes e secos, vegetação mais seca e ventos mais intensos.
- Secas no Alentejo: as albufeiras do Alqueva e do Arade atingiram mínimos históricos em 2022. O Alentejo está a caminho da desertificação se as tendências atuais continuarem.
- Desertificação do interior: segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), cerca de 60% do território português está em risco de desertificação.
- Subida do nível do mar: a costa do Algarve e da Ria de Aveiro são das mais vulneráveis da Europa Ocidental.
Compreendeste como a atmosfera funciona e porque está a mudar. O próximo passo é perceber como estes processos se relacionam com o ciclo rochoso — como a Terra tem regulado o CO₂ durante centenas de milhões de anos, e porque o ritmo atual é sem precedentes.